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Gênero: Conto Autor: Jair Cardoso Ano: 2008 Título: O homem que falava com Deus O homem que falava com Deus Aviso: O homem que falava com Deus é uma história pra ser lida em jejum, com o estômago embrulhado, peço aos leitores que não golfem antes de terminarem. A história, assim como os malditos personagens, é meramente fictícia. Qualquer semelhança com algum filho da puta na vida real, é um grande azar do infeliz. Caso alguém sinta-se profundamente constrangido e magoado com os fatos relatados nessa obra de bosta, favor me processar. Porém, não espere o idiota que vai sair dessa com algum dinheiro. Para extinguir de vez a esperança de algum veado interesseiro, deixo bem claro nessas entrelinhas que sou tão pobre materialmente quanto de espírito, o máximo que posso fazer é algum trabalho inútil numa comunidade decadente e perniciosa. Deixo bem claro que o ínfimo calão de minhas palavras não são formas maquiadas de agressão. Com toda sinceridade, são bem deliberadas e faço isso com muito gosto. Aos psicólogos metidos que pensam saber tudo que passa na mente de um idiota, e que por infelicidade venham taxar minha conduta verborrágica com interpretações Freudianas ultrapassadas, aviso que em nenhum momento finjo ser superior aos outros idiotas. Estou ciente que sou tão inútil quanto eles, porém não escondo minha condição primata e rastejante por meios de mecanismos de defesas. Também não vivo numa eterna regressão, pois ninguém regride sem jamais evoluir, essa é a lei básica de todo imbecil. O autor, que sou eu mesmo, grande bosta, não se responsabiliza por todo ou qualquer ato praticado advindo da leitura desse conto de merda. O imbecil que fizer isso, já era um imbecil retardado antes mesmo de ler o texto. Também não me responsabilizo por putas apedrejadas, veados sacrificados ou mendigos espancados. Que se danem todos. Não tenho vocações solidárias e tampouco darei a vida pregado numa cruz por esse bando de ingratos. Malditos ingratos! As partes que mencionam algum conceito sobre religião ou qualquer outro tipo de culto de natureza frívola e inútil, não são os mesmos conceitos do autor, ainda bem. Pois o autor, que sou eu mesmo, grande bosta, é bem mais radical. Porém, o autor, que sou eu mesmo, grande bosta, sabe que liberdade de culto e expressão é constituinte e cada qual que cuide de seu próprio rabo. Os personagens são todos fictícios e modelados à trama e todo pensamento é destinado ao modo de vida dos personagens. Se por ventura alguém gostou desse conto, me escreva e não esqueça de mandar uma garrafa de uísque. Se não gostou, vá para a puta que o pariu, não estou nem aí. O autor, que sou eu mesmo, grande bosta, cansou de escrever esse aviso e vai ali dar uma cagada. Boa leitura. Saudações. Esta é a história de um homem que dizem falar com Deus. O mais engraçado de toda essa palhaçada é que esses imbecis deduzem uma merda qualquer, se torna um mito e depois acreditam fielmente que é a mais pura verdade. O tal homem sou eu, esta é minha inútil história. Ao contrário de muitos imbecis que vivem por aí preconizando a tola igualdade, eu nunca enxerguei o ser humano com bons olhos, nem mesmo nutri falsas esperanças que um dia irão mudar. Não mesmo. Preconizar a igualdade é tolice. Quando falam em igualar direitos, não pensam em igualar direitos, mas somente merdas materiais. E são justamente esses os que não constroem e que nada têm para igualar. Já me disseram um dia que eu enxergo o mundo com um estrabismo exagerado. Acredito que não. Vejo o mundo com tanta amargura e desprezo quanto os outros. Estrábico é aquele que distorce a realidade e vive num conto de fadas. Eu a vejo tal como ela é: pornográfica e sórdida. Não vejo a vida de forma rebuscada e sem maldades, é ignóbil tratar assuntos humanos como um romance superficial e piegas. Tampouco me convém. É impossível olhar para os lados e não ver comportamentos animalescos e pornográficos. A humanidade produz o lixo e os puristas escondem debaixo dos tapetes. ‘Errare Humanum Est’, eis a frase que joga na cara toda nossa imprestável condição. Erramos por que somos medíocres e dispensáveis. Quando olho para cima não vejo um teto de portão dourado esperando por mim. Vou mais além, vejo um imenso universo que nos faz pequenos navegando no espaço e que carrega nos ombros o peso de errar. Nossa condição é ínfima perante o universo. Desculpe-me pelos pormenores desta narrativa, se é necessário eu não sei, mas estou ciente que afadigar o ego das pessoas com a ríspida realidade, é um erro irremediável. Me odiarão por isso, que se danem, malditos! Não quero pensar que você também é um idiota louco e que neste momento está ansioso pelo desfecho final. Esqueça o final, vamos dar atenção aos começos, jamais aos fins. Tudo começou aqui nesta cidade e neste mesmo bairro. Rio Maina, o coração pulsante e enfermo de Criciúma. Neste bairro, o nome é sinônimo da loucura decadente e humana. Carcomido pela morbidez idiota das pessoas, é severamente pisoteado pela massa putrefata e ululante. Em cada canto e em cada ruela, está impregnado o denso ar rarefeito e doentio. Entre as paredes de vidro, homens e mulheres rastejam amiúdes de posições trocadas, uns livres e engravatados cometendo seus crimes enquanto outros presos, pagando por coisas que não cometeram. O mundo cômico é reduzido ao íntimo de cada um de nós. Cada qual traz dentro de si os piores males, os piores defeitos, as tentações instintivas e os desejos torpes. Tudo em nós são interesses e egoísmo, mas não admitimos. Nos livramos sorrateiramente de nossas falhas culpando e degolando prováveis inquisidores e que também projetam mais adiante suas desculpas, deixando na soleira das portas os restos fétidos de suas entranhas. A vida é um emaranhado de valores ignóbeis e fúteis. Carregamos nos ombros um emplastro de culpa e maldade, nos desfazemos delas e forjamos uma nova realidade para cada situação. Não é atavismo, algo que reaparece vez por outra, é uma hereditariedade constante, passada e repassada nas diversas gerações seguintes. Não há outra saída senão admitir o quanto somos primitivos. Poucos admitem. A maioria vê em si a imagem de uma criação perfeita, e adulam com generosidade sórdida a bondade que não existe. Eu não sou bom. Tampouco admiro este inútil adjetivo. Bondade de mais é fraqueza de espírito. Os fracos alardeiam demasiada bondade para maquiarem o que realmente são: uns idiotas. O papel do bonzinho numa sociedade capenga serve justamente para isso, esconder deles mesmo este indulto de idiotice e entrega. Somos o que somos, uma humanidade imbecil e bestial. E vou além-túmulo deste monte de bosta superficial para esbofetear a cara do primeiro idiota que se diz superior ao outro. Estamos todos no mesmo nível. No nível mais baixo que se possa medir. Talvez você queira que eu fale de minha infância e conte um pouco sobre a vida de meus pais. Não farei isso. Minha infância fora uma merda e meus pais pareciam consumir drogas todos os dias, mas não se preocupe, eles não se drogavam, eram a própria droga em vida. Relatar meus infortúnios seria uma tentativa frustrada de lhe compadecer. Um idiota sempre usa esse tipo de argumento para desarmar o outro e deveras vezes consegue, extrair a misericórdia para si é um ato insano e medíocre. Quando uma pessoa começa a fazer merdas e nela aflora sua verdadeira personalidade limitada, ela busca desculpas tolas em seu passado, na sua infância. São apenas barreiras inúteis para não encarar a realidade que ela mesma criou. Todo tipo de catarse é uma forma de esconder delas mesmas a mediocridade, um escudo contra os demônios que habitam em suas entranhas. Todo imbecil é responsável por seus atos, sejam eles bonitos ou feios e na minha condição de idiota confesso, sei que meus atos não foram regressões ou algum tipo de subterfúgio. Jamais pode regredir aquele que nunca evoluiu. Eu não evolui e a humanidade também não. O meu velho morreu fodendo. Ele morreu feliz. Estava em cima de uma prostituta quando de súbito foi acometido por uma fulminante parada cardíaca. Não sabemos se foi antes ou depois da ejaculação. A maldita puta ficou tão traumatizada que não lembrou deste detalhe no ato da ocorrência. A lembrança mais vívida que tenho dele é de apenas um autêntico charuto cubano falsificado, dentro de uma boca que metralhava palavrões o dia todo. Menos mal. Sempre optei por ouvir palavras chulas, mas verdadeiras do que palavras doces e falsas. As pessoas gostam de ouvir o que mais lhes convém. Lotam igrejas e enriquecem palestrantes de uma retórica infalível. Gostam de massagear o ego com mentiras inúteis. Eu gosto de ouvir a nua e crua verdade que nos sangra até a morte. Medir palavras é coisa de frutinhas, a merda foi feita para feder, não importa onde ela esteja. Sei que estou me contradizendo, pois falei que nada mencionaria sobre os meus pais. Devo abrir uma exceção. Se todo homem constrói seu futuro em cima de seu passado, isso explica porque muitos só se fodem na vida. Regressão é sinônimo de burrice e debilidade, quem volta ao ponto de partida jamais começa do zero, estende ainda mais sua caminhada, e meus pais jamais foram meu ponto de partida, eles foram a própria merda no caminho. O meu pai era um canalha. Um maldito canalha inútil que nada fez em vida. Em respeito aos seus ossos, esta é a palavra mais amena que posso lhe condecorar. Minha mãe, depois do alívio que teve ao se livrar do molesto encosto que era meu pai, virou rameira. Melhor, continuou na lida, porém teve mais tempo para se dedicar ao negócio. Depois que saí de casa, não tive mais notícias dela. A mulher só tem identidade e uma vida enquanto mulher, depois de optar por ser puta, ela se torna mais um fardo inútil nesta sociedade de bosta. O padrão de vida ideal nutrido por esta horda de imbecis é um grande lago fétido, e coberto por uma finíssima camada de bons costumes. Quem não se enquadra nesse perfil idiota de aparências é escorraçado do harmônico e solidário convívio social. Com minha mãe não haveria de ser diferente. Alguns diziam que ela morreu fodendo, mas isso não seria nenhuma novidade para mim. Certa vez me veio aos ouvidos o boato de que acharam uma puta carbonizada numa vala. Creio que também não era ela e que talvez fossem apenas boatos. De qualquer forma ela já estava morta e eu não tive o trabalho de fazer o funeral, que se foda. O ato de apedrejar as putas é lamentavelmente engraçado, como se elas fossem responsáveis por desvirtuar homens santos e corromper famílias. O homem por natureza já nasce inútil e desvirtuado. É um grande imbecil que vive unicamente para satisfazer seus desejos instintivos. Está sempre jorrando seus espermas em qualquer canto, nas paredes ou na primeira trompa de falópio que encontra, não é uma simples puta que vai levá-lo à perdição. O trabalho de uma pataqueira é foder e cobrar por isso. A mulher recalcada e pura que fode em casa com seu marido também está consumando o simples ato de foder, não deixa de ser uma puta legalizada pela igreja. Sabemos que nem sempre família é sinônimo de conforto e felicidade. É dentro de casa que são dados os piores exemplos, que são cometidos os piores crimes e as mais funestas barbáries. Marginalizar as putas não vai mudar esta triste situação. A minha mãe era bonita. Tinha um corpo invejado por muitas ninfetas em plena puberdade, os seios eram redondos e duros feitos uma fruta suculenta. Ela tinha uma tara por sexo que era incomum, muitas vezes na calada da noite vinha de seu quarto um gemido doce e ardente, meu pai gostava de lhe penetrar por trás. Outro dia flagrei os dois fodendo no sofá, não se perturbaram com minha presença. Gozaram e saíram. Tive imensa vontade de estar no lugar de meu pai. Lembro de uma vez entrar no quarto dela sem avisar, ela estava se trocando e ficou pelada na minha frente. Eu a olhei de cima a baixo. Tinha os pelos pubianos milimetricamente aparados. A diaba era gostosa mesmo. Me masturbei dois dias seguidos pensando nela.
Escrito por Jair às 21h31
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Parte 02
É irritante esse pensamento álgido de atribuir dignidade a um simples hímem. É apenas um cabaço, o resto é puro machismo. Afora alguns poucos momentos que estive bem comigo mesmo, o resto fora uma merda. De tempo em tempo minha memória é infestada por lembranças perturbadoras de surras, castigos e um íntimo desejo de foder com a própria mãe. Já me acostumei com tal situação e por vezes nutria um pavoroso sentimento de vingança. Somos realmente realizados quando nos vingamos de tudo aquilo que nos causou perdas e humilhações. Um homem quando busca uma energia além-túmulo para adquirir alguma coisa na vida, não é simplesmente para mostrar ao outro que venceu e que se tornou superior a ele. No íntimo de suas entranhas, o que deu proporção a essa energia foi um infame sentimento de vingança. Nosso inconsciente é vil e vingativo. E tudo aquilo que conquistou servirá de subterfúgio para jogar na cara do outro o quanto ele é fraco, indulgente e preguiçoso. Dentro de nós há uma luta feroz em busca de poder e status, e o que nos leva à guerra não é exatamente o surrado lema de auto preservação, mas sim, o de ser superior, e de querer pisar em cabeças até esmagar cérebros. Pode se dizer que há nisto um pensamento mesquinho, mas esta é nossa essência, mesquinharia e estupidez nos fazem ser o que somos. O mais interessante é que sentimentos ruins são perversamente maquiados e até mesmo podem ser considerados algo bom. O mundo dá voltas e cedo ou tarde temos a chance de retribuir o que nos foi dado. Não viramos a outra face, que não sejamos fracos e covardes. Pagar com a mesma moeda é sempre mais compensador. Certa vez, depois de comer o rabo de uma puta, ela me confessou que fazia aquilo para se vingar de toda burrice e mentira que um dia a envolveram. Aos vinte e dois anos de idade ela enganava multidões com a falsa palavra dos homens, envolvida por promessas miraculosas e divinas. Via rios de dinheiro sendo distribuídos entre os falsos detentores da fé e numa crise de consciência, decidiu virar rameira, assim como Madalena. Ela dizia que o mais culpado de todos não eram os ladrões, e sim o povo, uma horda de idiotas cegos que alimentavam a ganância de poucos. Nos simpatizamos e por um longo tempo a gente trepou. Talvez Jesus fora um cara legal em vida. Mas algumas coisas não se justificam. Morrer por um bando de idiotas ingratos é burrice. O ser humano não merece tamanha entrega. Essa raça desgraçada que sacrifica seu suposto salvador, deveria sucumbir em seus abismos todos os dias. Ainda assim lotam as igrejas, mas não para eximir-se da culpa e ingratidão, estão lá apenas para pedir mais e mais. Quando estão na merda, se humilham, se estrebucham e regurgitam suas penúrias nos altares. Não passam de um bando de hienas ululantes em cima da carniça. Os vampiros que sugam vorazmente o sangue do malogrado redentor. O que Jesus não imaginava é que seus modestos ensinamentos de vida iriam se transformar num antro de poder e status. Durante séculos igrejas lapidam leis inúteis que transformam o homem num capacho. Religião é a droga mais putrefata que existe e impôs uma subserviência mórbida à humanidade. Minha aversão a todo e qualquer fundamentalismo exacerbado não é por acaso. Tive a péssima sina de conviver com um deles ao lado de minha casa. Quando eu saía pela manhã para ir até o bar da esquina comprar os fedorentos charutos de meu pai, lá estava ela, a filha mais nova de Harão. De longe eu admirava sua beleza feminina. O ônibus da escola chegava e ela partia, deixando para trás um rastro de saudade. Vez por outra aparecia na porta o pai dela. Um turrão ignorante que cumprimentava os outros imbecis com o tradicional ‘paz do senhor, irmão’. Eu não via naquilo sentido algum, são justamente os que pregam a paz que preparam a guerra. E a ‘guerra’ dele era contra os malditos infiéis que moravam ao lado. Meus pais. Disseram um dia que o idiota preparava um abaixo-assinado para nos tirar dali, pois não tínhamos o direito de impregnar suas imáculas vidas com o ar pornográfico que respirávamos. O diabo vive ao lado, dizia Harão num de seus discursos em frente ao portão. O mais interessante é a forma como tratam os mesmos de sua laia. São as ovelhinhas salvas resplandecentes de amor, bondade e justiça. Quanta idiotice. Enriquecem o clericato enquanto vivem na mais pura pobreza de espírito. O falso amor ao próximo me causa urticária, nem mesmo o simples ato de doar se faz com entrega. Por trás desta aparente bondade existem as pretensões egoístas, e eles esperam fielmente a tal recompensa divina. Marx certa vez falou que religião é o ópio do povo. Vou mais além, religião é pirataria, é produto mercantilista sem nota fiscal. O Estado deveria banir igrejas e qualquer tipo de conclave, depois prender numa solitária os falsos detentores da fé. A lembrança mais bizarra que jamais saiu de minha memória é justamente sobre a família de Harão. Eles eram bem conhecidos na redondeza por serem tão ligados aos surrados costumes da santa e inútil madre idiota igreja, grande bosta. O cara, pai de família, era um retardado. Um boçal dentro de um terno mal passado e uma bíblia debaixo do braço cheirando ao azedume do suor. Se o pastor lhe disser que Jesus fora veado, no outro dia ele sairia dando o cu só pra ser igual ao mestre. É o típico idiota subserviente inserido numa sociedade mais idiota ainda. A mulher de Harão era bem esquisitinha e de uma fisionomia apática. A coitada tinha uma languidez exagerada, além de um pudor fora do comum. Talvez era o tipo de mulher que as aparências realmente enganavam e que se revelava uma fera indomável entre quatro paredes. Rose era o nome dela. Um nome amável e singelo que refletia em seus olhos. Diferente do espalhafatoso marido, ela era mais equilibrada e lacônica em suas atitudes. Muitas bestas incorrigíveis não merecem a mulher que tem em casa, eles esquecem de dar o devido valor e respeito e muitas vezes as tratam como simples serviçais. A parte cômica da história é o desfecho que sucedera com suas filhas, uma de dezesseis e outra de quatorze anos. Eram duas ninfetinhas bem gostosinhas, pena que eram tão imbecis, se achavam maiores que tudo. Harão era um pobre fodido que não tinha onde cair morto, mas as filhas eram zeladas e tratadas como princesas. Ele enchia a cabeça das coitadas de falsas aparências e promessas de um mundo sem maldades. Eu era perdidamente apaixonado pela mais nova, na época tínhamos quase a mesma idade e eu nutria por ela uma amor platônico e infantil, mas não muito inocente, na primeira oportunidade eu a comeria. Eu não poderia me aproximar delas porque eu não era um autêntico filho de Deus, pois o fervor religioso não corria em minhas veias, para eles eu era um lixo, alguma coisa sem valor. O que eu fosse ou deixasse de ser já nem me importava mais, eu não era bem-vindo àquela família e Harão deixou isso bem claro algumas vezes. Ele alardeava aos quatro cantos a pureza das filhas, como se fossem duas obras-primas feitas de porcelana chinesa. É irritante esse pensamento álgido de atribuir dignidade a um simples hímem. É apenas um cabaço, o resto é puro machismo. Certo dia, assim relatou as testemunhas oculares, que num daqueles cultos inúteis e inflamáveis de igreja evangélica, o pastor pregava a parábola de Lot e suas filhas. Está em Gênese no antigo testamento. As filhas de Harão e o próprio algoz estavam lá, ouvindo atentamente de forma hipnotizada as investidas subliminares do tal pastor. Igrejas são todas iguais, auto falantes na frente do altar e nas paredes laterais. Um som de fundo quase imperceptível, um pastor bem instruído para a função e todo aquele bando de ignorantes engolindo a seco as inúteis palavras de salvação. É uma lavagem cerebral descarada. Depois do culto, as famílias voltam ao lar, a epopéia dos bons costumes e bons exemplos, alguns vão trepar, outros apenas dormir. Já era tarde e Harão perambulava pela casa feito um asno ruminando alguma coisa. Lembrava da tal história, abria a bíblia e até esboçava alguma reflexão sobre ela. O vivente atordoado com aquelas vozezinhas irritantes do maus pensamentos, vai até a cozinha e beberica um bom vinho de terceira. Altas horas da noite o imbecil toma uma decisão fúnebre em sua vida. Sem mais delongas, vou ser curto e grosso. Moral da história: um pai preso e duas filhas sem cabaço. O desgraçado comeu as próprias filhas. No dia seguinte veio até a imprensa e fizeram um alarde do cão. A notícia correu toda a cidade como rastro de pólvora, um fato inusitado que teve grande repercussão até mesmo nas cidades vizinhas. Literalmente e no real sentido da palavra, Harão fodeu com a vida das três mulheres de seu pequeno harém. Disseram que aquele homem puramente religioso foi tentado e possuído por algum espírito ruim, e que aquilo fora obra do demônio. Esses canalhas quando raramente fazem alguma coisa boa, não dizem que estavam possuídos por algum espírito divino. Se vangloriam eles próprios, adocicam o ego. Então quando fazem merda, jogam a culpa no inocente diabo. A igreja de Harão não quis intervir no delicado assunto e decidiu que o pervertido estuprador não faria mais parte da firma. O tal perdão da instituição dogmática é puro embuste, em tudo se visa o lucro, somente o lucro. Quando não se pode mais atender essa necessidade as pessoas são descartadas como lixo. Harão levou um chute bem dado na bunda, e foi bem feito. Dali surgiu o primeiro sentimento de vingança que pude sentir. Não tive participação alguma, mas me senti bem melhor ao ver aquele idiota sendo levado algemado e as duas filhinhas puríssimas serem maculadas de tal maneira. Pela primeira vez ao ser escurraçado e tratado como algo insignificante, me senti superior. Foi doce o sabor da vingança. Muito doce. Por outro lado, Rose não merecia estar inserida naquele ordinário desfecho. Ela se sentiu extremamente constrangida pela atitude do exemplar marido. Se há males que vem para o bem, então foi um mal necessário. Ela também não merecia viver ao lado daquela besta inútil. De uma forma ou de outra, as filhas seriam comidas algum dia. Depois de um tempo elas mudaram de cidade e colocaram a casa à venda. Meu pai sempre dizia que um dia iria foder com a desquitada, mas não conseguiu. Rose demonstrou personalidade forte e jamais abriria as pernas para um canalha igual a ele. Confesso que também tentei tirar uma casquinha da filha mais nova. O máximo que consegui foi ver, por uma fresta que havia na janela de seu quarto, foi seus peitinhos tesos ainda aflorando para a vida. Ali mesmo eu me masturbava e ia embora feliz. Harão certamente virou mocinha na cadeia. Um pobre diabo em igual situação paga todos os pecados que cometeu em vida, principalmente o da soberba. O imbecil aproveitou bem seus momentos de boneca. Está mais largo que marafona de avenida.
Escrito por Jair às 21h30
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Parte 03
Putas também tem orgulho e raras vezes tem até sentimentos Por um bom tempo tive aversão às prostitutas. Tratava-as como um insignificante objeto de luxúria. Não era por mero desdém ou status, eu jamais me vi acima de qualquer pessoa, até porque ao longo de minha vida, minhas necessidades sexuais foram nutridas pelas rameiras. Mesmo assim, elas eram para mim alguma coisa sem valor, porém jamais consegui viver sem bebidas e putas. É uma sina desgraçada que leva qualquer homem à ruína. Sei que minha personalidade foi moldada com tudo que há de mais podre numa sociedade, e o que eu sentia pelas marafonas não era por um simples acaso, minha mãe contribuiu muito com essa ojeriza. Ela fora uma pataqueira desqualificada e eu nutria por ela ódio e desejo ao mesmo tempo. No fundo, penso que ainda existe algum resquício desta dúbia contrariedade de amor e ódio, repulsa e atração. Não é de um dia para outro que nos livramos deste lixo conflituoso alojado em algum lugar do subconsciente. A partir do momento que se toma consciência dessas coisas inúteis, nos livramos delas. Alguns tolos dizem que tudo isso faz parte de um processo de crescimento. Eu discordo. Para quem nasce pequeno, é impossível crescer. E no meu caso não seria tão fácil assim. Eu entrei no mundo pela porta dos fundos, convivi com toda imundície humana varrida para um quarto úmido e fétido, maquiado pela caiação das aparências. Tão cedo descobri os sentimentos torpes por trás da maquiavélica bondade humana. Cresci entre ratos e ratazanas e suguei o leite quente das almatéias. Não poderei enxergar o mundo de outra forma sem esse glaucoma doentio nos olhos. O golpe mais duro é saber que pessoas excluem uns aos outros de suas vidas. Muitas vezes por motivos tão banais. Nem sempre podemos agradar e ter em mãos o que elas realmente querem. Nunca acreditei neste falso amor que dizem haver existir. Ou suprimos a necessidade egoísta do outro ou seremos definitivamente excluídos. Eu já exclui pessoas de minha vida e também provei do mesmo. Meu pai acabara de morrer, dias depois juntei minhas coisas e cai no mundo. Mas antes, olhei para minha mãe com certo desgosto. Por um breve instante quis me atirar em cima dela e rasgar suas roupas com os dentes. Sonhei a vida toda em beijar seus lábios e misturar saliva de mãe e filho num ardor secreto e mais forte que qualquer instinto, descer a língua até seu clitóris e chupar até ela gozar para depois consumar o coito lhe possuindo feito um animal selvagem. Mas não fiz e a deixei. Eu a exclui de minha vida como se fosse uma cadela sarnenta. Quando sai daquela casa já não era mais seu filho, era apenas um estranho instigado todos os dias pelo cheiro de sexo. Talvez eu até já me arrependi desses pensamentos torpes e por deixá-la sozinha na vida. Talvez não. A culpa é o abutre que corrói meus fígados todos os dias. À noite tudo se regenera para não pôr fim a esse eterno sofrimento. Os deuses também são vis quando querem, e que se foda. Não quero justificar minhas ninharias e assim dizer que eu posso ser melhor algum dia. Não mesmo. A lei da atração não falha. Tudo volta para nós na mesma intensidade e com isso aprendemos ou quem sabe vivemos eternamente cometendo os mesmos erros, que é o mais provável. Sei que o arrependimento é o primeiro passo para a mudança, mas não me arrependo e não vou mudar subitamente. Estou ciente dos meus erros e não sou tão covarde ao ponto de jogá-los no lombo do mundo. Através disso quero chegar a um único e simples objetivo, de que aprendemos com toda e qualquer situação. Certa vez pedi para uma puta subir até o quarto de uma pensão onde eu parava. A infeliz fazia ponto quase debaixo de minha janela. Há tempos eu já estava de olho na maldita biraia. Era uma negrinha jeitosa e tinha uns belos peitos afunilados, desses que a gente perde uma noite inteira chupando. Sempre tive uma queda por uma boa negrinha, elas são quentes e vorazes na cama. Mas era uma simples mariposa e isso me causava ânsia de vômito. Ela subiu e entrou porta adentro, por alguns segundos fiquei admirando sua boca de belos lábios carnudos já com segundas intenções. Os peitos redondos e pontudos feito uma fruta suculenta e ao ponto, me instigavam secretamente. Mas eu não queria foder com ela, meu único interesse era lhe causar humilhação, e assim fiz. O quarto era mal iluminado e ela já estava tão acostumada com ambientes de prostíbulos que se sentiu em casa. Pedi para a maldita ir tirando a roupa devagar. Era danada de boa, confesso que fiquei eriçado de tesão, mas segurei meu instinto e não a molestei. O que eu queria com aquela situação não sabia ao certo. Mas dava-me o mesmo prazer. Mantive uma distância razoável, mesmo assim sentia o ardor secreto de sua pele e com um olhar pífio intimamente desejava que a possuísse. Uma febre gélida tomou conta de mim. Eu estava entorpecido por aquele corpo negro, sedento por sexo. Pedi para a puta tirar somente a roupa acima da cintura e massagear os próprios peitos. Aquela encenação me deixava mais tenso e satisfeito. Ela passava levemente a língua em seus mamilos e massageava sua barriga enxuta e definida. É assim que você gosta? Perguntava ela. Eu a olhava fixamente e acenava a cabeça, aprovando sua forma despudorada de me arrancar alguns suspiros de prazer. Então eu lhe disse para se deitar na cama e tocar suas partes íntimas com mais selvageria e malícia. Ela ficou ali se tocando e contorcendo feito uma víbora. Eu ainda não estava satisfeito, queria mais, até vê-la lambendo os meus pés e passando a língua entre minhas frieiras. Imediatamente ordenei que tirasse a roupa e ficasse só de calcinha e em seguida pedi que desse algumas voltas. O quarto era pequeno e não havia muito espaço para transitar, eu me esquivava para não tocar em sua pele quente, a vontade maior era de parar com aquela palhaçada e comer logo aquele rabo, mas, enquanto ela andava de um lado ao outro, sentei numa pequena cômoda, dividindo espaço com um abajur que mal iluminava o quarto, para lhe observar. A calcinha era branca e minúscula, contornando levemente a cona. Com voz grave, falei para sentar novamente na cama. Ela sentou-se devagar e me olhou com desconfiança. Cruzou as pernas instigando ainda mais meus desejos, ficou em silêncio e não demonstrou curiosidade para saber o que eu estava planejando. Pedi que deitasse e abrisse as pernas devagar e que tocasse levemente o clitóris, queria vê-lo eriçado, falei. Ela fazia exatamente o que eu mandava, mas com certo desconforto. Ilhando para o meio de suas pernas e admirando sua bela cona, tive um ataque de risos. Talvez ela imaginava que eu era um veado qualquer ou quem sabe um voyeur psicopata que lhe cortaria em pedaços horas mais tarde. Somente o fato de eu não querer foder com ela, já lhe intrigava. Putas também tem orgulho e raras vezes tem até sentimentos. Então ela disse que não via graça nenhuma e puxou a calcinha até o joelho. Me senti imune à sua implicância, mas não pude deixar de pensar que a minha atitude era de um grande imbecil. Mandei a pataqueira vagabunda calar a boca e fazer o que eu estava mandando, coloquei algum dinheiro na cômoda e senti um desprezo fúnebre em seu olhar. Tentei sentir pena e não consegui. Pena é um sentimento vil e somente os fracos e idiotas a sente. Eu não dava valor a mim mesmo, não daria valor a uma puta qualquer. Olhei para ela e perguntei por que gostava tanto de dar o rabo. A desgraçada não respondeu. O silêncio dela me causou certo desconforto. Eu estava preparado para qualquer resposta, menos o silêncio. Percebi que ela sentia medo. Dei uma pausa e fiz a mesma pergunta, fingindo alguma irritação. Seus olhos se mostravam mais tensos. Estávamos confinados naquele quarto onde só algumas palavras me interessavam. Nada de sexo, tampouco o amor. Estávamos ali um de frente ao outro tentando entender o que se passava na cabeça de cada um. Ela tentou se justificar me dizendo que fazia aquilo porque precisava do dinheiro. Pessoas precisam se alimentar e suprir suas necessidades, dizia. Enfim, o mesmo lugar comum de sempre, como se a vida fosse um caminho tortuoso sem fim e que é preciso chegar ao fundo do poço para depois descobrir que tudo era tão fácil, bastava seguir o caminho correto. Muitas mulheres trabalham honestamente e não precisam dar o rabo para sobreviverem, falei. Ela me olhou com desdém e me respondeu exatamente assim: a mulher dá o rabo para seu namorado ou marido e é maltratada e surrada dentro de casa, depois trabalha honestamente para alimentar os filhos e por vezes o companheiro canalha. Vocês que ficam nos julgando, são o tipo de pessoas que não enxergam um palmo à frente por causa da hipocrisia. Eu não dou meu rabo, eu vendo. Se a mulher fosse mais inteligente, daria valor ao próprio rabo. Caralho! Aquilo foi uma puta verdade que me rasgou os tímpanos. Em poucas palavras ela me fez enxergar mais longe e descobrir que nem tudo que temos como algo correto pode ser o que é. Minhas opiniões foram todas quebradas, desde então passei a buscar novas impressões de vida. Dali em diante eu esboçava um grande respeito pelas rameiras. Minha tática de lhe humilhar não fora em vão. A maldita sabia pensar e aquilo me deixou feliz. Fodemos a noite toda. Talvez eu buscava apenas uma justificativa para perdoar minha mãe. eu sabia que jamais teria a oportunidade de ouvi-la, portanto teria que buscar por outros meios. De certa forma, aquela puta me tirou um fardo pesado dos ombros. As respostas para nossas dúvidas sempre virão. Mais cedo ou tarde elas virão. Naquele momento, olhando nos olhos da negrinha e contemplando com ela o mesmo silêncio pude perceber uma complacência que havia entre nós, e por mais que se tenha o controle da situação, nunca se pode prever o minuto seguinte. O tempo em sua mais delicada forma lapida nossa vida a cada instante. No íntimo, estamos em constante mutação, e poucos aprendem com isso. CONTINUA... (AGUARDE NOVAS POSTAGENS)
Escrito por Jair às 21h27
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O Poço
Existe o poço e o fundo do poço. Em 2008 comecei com o pé direito. No poço. Cá entre nós, o poço é apenas uma metáfora e, metaforicamente falando é o mesmo que dizer estou fodido. Mas vou usar o poço, é menos torpe. Não que isso me implique uma inocência exagerada. De longe, muito bem de longe minha personalidade é maquiada pela alvura da inocência. Há quem diz que o poço na vida de uma pessoa lhe traz transformações, e que o poço está ali desafiando os limites de quem está atolado até o pescoço. Que mentira, é uma ilusão cabeluda. A vida é um vir-a-ser incessante como se fosse a água do rio daquele filósofo de outrora. O que vive no poço é água putrefata e parada. É bem verdade que água de rio também dá merda, mas pelo menos não pára e por esse mísero detalhe é bem melhor que está no poço. Outros fazem questão de alardear que o fundo do poço deixa as pessoas mais humanitárias e orgulhosas de si mesmas. Outra mentira, exemplo disso está a minha pessoa. Me tornei mais rancoroso e vingativo. Toda vez que não me escolhiam numa entrevista de emprego logo pensava: Um dia vou ter minha própria empresa e vou quebrar a sua, desgraçado. Isso quando não imaginava um coquetel Molotov rasgando o céu feito um meteorito e incendiando a fábrica do calhorda. O poço também me deu alternativas para encarar a vida com outros olhos. E até mesmo por ângulos diferentes. Me tornei um suicida em potencial . por outro lado, exercitei a enferrujada mania de leitura. Lia mais horóscopos, sorte do dia e um caminhão de livros de auto-ajuda. O teor literário desses clássicos de botequim é impressionante. Cada cem livros aprende-se em torno de dez palavras novas, afora meia dúzia de um anglicismo exacerbado. Aprendi que o máximo que se pode chegar lendo um Augusto Cury da vida é aos pés de um idiota. E olhe lá. O mais interessante nesse tipo de leitura são as formas que o autor encontra para separar o indivíduo do poço. Chegam a sugerir que a felicidade está dentro de nós e não nas coisas materiais. Nesta mesma linha de raciocínio chegam ao disparate em dizer que acima de tudo deve se dar valor as coisas pequenas. Supondo que o autor escreve para um público que vive dentro do poço, coisas desse tipo causam a maior confusão nos viventes. Se devemos pensar nas coisas pequenas e dar-lhes o devido valor, então, sumariamente devemos pensar apenas no poço, pois o poço é alguma coisa pequena. Também supondo que esses vivem dos livros que vendem, tudo isso faz grande sentido. Sem poço não há vendas e sem vendas o autor também vai para o poço. O maior medo desses literatos, sem dúvida alguma é a intelectualização dos indivíduos pocianos. Quando o povo aprender separar o trigo do joio, esses escritores de botequins que dão fórmulas prontas e indolores, tão cedo vão para o poço. Analisando pelo outro lado da coisa, já se nota a vista grossa como esses autores se contradizem. Oras, se felicidade não está no conforto e na bonança, não deveriam eles mesmos viverem em palacetes e abarrotar a conta bancária com milhões e milhões. Na minha condição de habitante do poço, com todo esse dinheiro na conta eu estava rindo à toa. Imagina. Um milhão! Com um milhão trocaria todos os poços de minha vida por enormes piscinas de águas mornas. Existe àquela velha máxima de que atraímos o que pensamos, e que tudo está alinhado com nosso campo vibracional. Com um milhão eu atrairia um caminhão de ninfas e ninfetinhas serelepes feito mariposa na luz. Aquela outra máxima de que pensamento positivo faz dinheiro é puro embuste de marketeiros. O que faz dinheiro mesmo é aquele milhão na conta bancária. Pensamentos positivos dentro do poço não passam de apenas pensamentos positivos dentro do poço. Nessas minhas andanças pelos poços da vida, encontrei um cara legal e que era o cúmulo dos bons pensamentos. Era um cara legal. Morreu no poço. Falar isso para o pobre indivíduo habitante do poço é uma hipocrisia sem tamanho. O poço é mais audacioso e voraz que qualquer pensamento positivo. Mas, com um milhão... Existe uma grande complacência entre o poço e o indivíduo, com o passar do tempo se tornam unha e carne. Começa aí uma amizade duradoura que pode se arrastar pela vida inteira. Quando começamos confidenciar nossas lástimas ao poço, estamos num estágio perigoso, sem dinheiro, família e o pior de tudo, sem dignidade. Outrora quando tínhamos tudo, os amigos estavam sempre por perto. Na desgraça todos se vão. O único que está ao seu lado e que jamais vai te abandonar é o maldito poço. Essa é a lei do poço. Metaforicamente falando é a lei do cão, ou para os mais nojentos, a lei do caos. Alguns chamam o poço de sina ou destino. Outros denominam de carma, aquela velha história do ‘tudo estava escrito’. O pociano, indivíduo encrustado no poço diz: Puta merda, aqui é foda. O indivíduo que nasce no poço está fadado a viver e morrer no poço, assim como o musgo que não pode viver sem a pedra. Isso não é sina ou carma, é uma condição de vida, puta merda. O sujeito ligado ao poço desde o cordão umbilical conhece muito bem esse detalhe, por isso não reluta muito para se livrar dessa condição. Muitos acreditam que viver no poço tem lá suas vantagens. Só que esses muitos não estão no poço. Estão lá fora colhendo essas tais vantagens. O pociano também é pacato as suas devoções, existem as exceções é claro, e numa dessas exceções estou eu de novo. Ser devoto é um estado de espírito. Meu estado de espírito é tão ínfimo que prefiro não tomar partido de nada. Quando o projeto de cidadão pociano começa ter noção de sua realidade fatídica, tem duas opções: ficar no poço ou sair do poço. A primeira sempre vence. O cidadão pociano é rústico e queixoso. Nunca está satisfeito com o que tem. Sempre quer mais e sempre tem menos. Alguns que dizem ter uma sabedoria divina falam que é preciso lutar contra o poço. E são justamente esses que nunca venceram. Outros mais brutos e negativistas colocam a culpa de seus males pocianos nas forças malignas que os rodeiam. E por incrível que pareça até no presidente da República. Mas também nada fazem para mudar. Por outro lado, existem os comunistas cheios de idéias novas e desafiadoras. Esses acreditam fielmente que há diversas formas de sair do poço. Morrem no poço. Se Einstein analisasse fisicamente o poço, diria que há uma grande massa que altera o campo gravitacional e que atrai para si as massas menores. E que no poço existe uma energia inexplicável e essa energia atrai o individuo como se fosse mariposa na luz, dificilmente conseguirão sair do poço. Resumindo em uma linguagem mais simplícia para que o cidadão pociano possa entender. O poço é foda, puta merda! Às vezes tenho alguma diligência ao mencionar minha condição pociana, sinceramente, gente do poço também quer dignidade, conforto e respeito. Por mais que se lute por um lugar ao sol, gente do poço será sempre gente do poço, onde acima de tudo está a alegria de viver. Para terminar essa crônica, quero brindar a tua e a minha condição pociana e ínfima. E dizer que o melhor remédio para os males dessa vida é sorrir e às vezes, só às vezes colocar a culpa no presidente. E viva o poço. Vida longa ao poço. Droga!
Escrito por Jair às 17h41
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“Se alguém lhe der um tapa, vire a outra face”
Quando Jesus Cristo proferiu essas palavras, muitos até poderiam pensar que Ele era louco. Como pode alguém levar um tapa e não revidar? Isso é covardia! Mas Jesus sabia muito bem o que estava falando e media sabiamente suas palavras. Talvez não estivesse mencionando um simples ‘tapa’ físico. Não mesmo, mas um ‘tapa’ no espírito. Isso mesmo, quando alguém nos fere o espírito, não revidamos, viramos a outra face, perdoamos. Perdoar é livrar-se dos rancores, da vingança, de sentimentos perturbadores. Perdoar é o que há de mais bonito na atitude humana. Quando o espírito é ferido e revidamos, estamos sendo tão mesquinhos quanto nossos agressores, tão tolos quanto eles, estamos gerando um sentimento ruim dentro de nós, e uma semente ruim pode acabar com toda a plantação. Quando se perdoa estamos provando nossa imensa superioridade. O próprio Jesus de Nazaré dizia pra não ser bom ao ponto de ser trouxa. Não, bondade demais é fraqueza, porém ser bom nos momentos certos é uma dádiva. E se algum dia levarmos um ‘tapa’ no espírito, não façamos o mesmo, pois se fizermos é porque somos iguais àqueles que nos feriram.
Jair Cardoso
Escrito por Jair às 23h23
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Golpe do bilhete premiado. Quem é o ladrão?
Dias atrás estava assistindo uma reportagem sobre o tal golpe do ‘bilhete premiado’, e de praxe as “vítimas” dando testemunho e profundamente magoadas pela armadilha que acabaram de cair. Realmente um fato lamentável, usurpar do próximo o que na maioria dos casos levaram anos, senão décadas para juntar e dar de bandeja ao ladrão, é doído. O que acontece é que o ser humano se aproveita da ingenuidade do outro, sempre quer ser mais esperto e tirar vantagem em tudo. Quando vê uma oportunidade pra se dar bem com o alheio, não perde tempo pra dar o golpe. Cadê todo aquele papo furado de ética, moral e as tais leis da tábua? Talvez isso seja uma besteirinha a mais até mesmo no currículo do cidadão mais moralizado. Quando é pra “botar a mão” no que é do outro o esperto dá um jeitinho de esquecer tudo isso. Caro leitor, não pense que nesse discurso estou me referindo aos golpistas, não mesmo, me refiro é das tais ‘vítimas’, sabe por quê? No tal golpe o gatuno finge que é humilde, veio do interior e não sabe ler nem escrever, e tem em suas mãos um bilhete da ‘loteca’ que diz ser premiado e que saiu lá de seu ‘barraquinho’ pra tirar o prêmio, só que o coitadinho não sabe como fazer isso, então vai engambelando a suposta ‘vítima’ que nessas alturas já com segundas intenções, pensa que àquela pobre criatura analfabeta tem em suas mãos um bilhete milionário, e já vai crescendo o “zólhinho” no bilhete. Logo em seguida chega o comparsa do gatuno com texto decorado e fazendo o papel do ‘capetinha’ pra mexer com o psicológico da referida ‘vítima’. Papo vai, papo vem e a ‘vítima’ com o comparsa do gatuno, já acomunados, decidem dar uns trocadinhos pro ‘infiliz’ do bilhete e embolsar a bufunfa toda. E nessa balbúrdia psicológica, o golpista se torna a vítima e a tal “vítima” assume o papel do golpista. Entendeu agora leitor? É peixe querendo comer tubarão! Mal sabia a tal ‘vítima’ que estava sendo monitorada o tempo todo, e que o golpista escolhe a dedo o ‘zolhudo’ da vez. Eu não tenho pena, caiu no golpe do bilhete premiado é porque é malandro também, e ladrão que rouba ladrão... A pessoa honesta faria da seguinte forma: Levaria o ‘sorteado’ até uma lotérica mais próxima e o deixaria com o gerente, caso os golpistas insistissem, viraria as costas e iria embora. Mas quem tem ‘olho grande’ e que pensa em tirar proveito da ingenuidade do outro, acaba por se dar muito mal, pode ter certeza.
Escrito por Jair às 18h01
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O caos de cidade pequena
Há pouco tempo estive de mudança. E mudei pra pior suponho. Tudo aqui cheira a monotonia, é o caos de cidade pequena. Creio que a teoria de Einstein tem um pé de fundamento, quanto maior a massa, maior a distorção de tempo e espaço. Aqui o tempo parou, a festa acabou, a massa sumiu e agora José?
Há quem diz que cidade pequena é um paraíso. Sem roubo, sem violência, sem a máfia da politicalha fedorenta, sem sargeta e prostituição. E daí? Se o ser humano fosse tão correto assim não haveria cidade grande nem furtos, latrocínios, assassinatos, corrupção e o diabo que for. Tudo isso é hereditário, guerras, vaidade, luxúria, estupidez. O caos está no sangue, corre pelas veias e oxigena o cérebro.
Às vezes escuto a voz de Deus sussurrando baixinho ao pé do ouvido.
“Meu filho, preserve a vida, ame o próximo, a natureza e seja bom.”
Olha quem fala! Destruiu Sodoma e Gomorra numa saraivada de fogo, mandou matar criancinhas inocentes no Egito, sacrificou animais e não contente com tudo isso, inundou completamente a terra. É Deus, filho de peixe...
Eu gosto mesmo é de ver prostitutas se esbofetando nas esquinas. De ver veadinhos fazendo ponto na Avenida. De ver maltrapilhos vadios mendigando um pedaço de pão em vez de trabalhar. De ver pastores ladrões vendendo psicologia barata, enchendo os bolsos e andando de carrões. De ver gente pequena brincando de ser poderosa. De ver político sacana metendo a mão no dinheiro alheio. Que maravilha! Isso é cidade grande, onde o ser humano se revela e não tem medo de ser feliz!
Não vou dizer que cidade pequena não tem essas coisas, aliás, onde tem gente sempre terá essas coisas, só que em cidade pequena há um certo respeito. Quem dera, o povo quer ser educado e até consegue fingir muito bem que nada faz de errado. E por isso é tão monótono, tão sem graça.
O legal mesmo é se desviar de balas perdidas, processar o próximo, dar umas porradas em algum trombadinha, saber que todos os dias é um desafio, que há obstáculos por toda parte, ter sempre a sensação que vai ser abordado na próxima esquina, depois chegar em casa, olhar para a selva de pedras e dizer. “ Vim, vi e venci!”
Mas nada disso acontece por aqui. Depois de certa hora as ruas ficam desertas, todos vão para suas casas ver novelas, ver jornal e se horrorizar com tanta violência lá fora.
Cidade pequena tem cheiro de missa, tem gosto de naftalina, tem ar de nostalgia.
Talvez pode ser legal, mas só depois de eu me aposentar, pois sei que com o nosso salário mínimo, a única solução é viver num lugar bem pequeno.
Escrito por Jair às 08h58
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Os cabelos dourados de anelyze
Pobre Anelyze, todos os dias a mesma rotina. Com seu andar de moça faceira sobe o morro desce o morro e segue pela Avenida. Suas pernas são torneadas, atraentes e depiladas. Os peitos são afunilados, uma obra divina, um convite ao pecado. Anelyze é esbelta e recatada, mas talvez ordinária na cama. Tem um semblante doce de mulher romântica, um olhar distante de mulher safada. Sardinha a espera na janela todos os dias. Quer vê-la passar, admirar seu corpo, suas belas nádegas que serpenteiam. Ele a estuda lhe penetra lhe estupra a carne todos os dias. Sardinha é jovem, têm seus desejos, seus anseios de moleque. E todos os dias naquela janela fuma seu baseado à espera de Anelyze. Anelyze não quer casar, tem seus motivos, já está cansada de conviver com homens canalhas. Eles deixam suas esposas em casa cuidando dos filhos e vão para as ruas trepar com as prostitutas. As prostitutas são mulheres livres, despudoradas e insanas. As prostitutas não têm nome, são apenas pobres prostitutas. Mais uma noite de trabalho. Anelyze cuida dos mínimos detalhes, escova seus belos cabelos, passa o batom de cor suave, veste sua roupa justa e atraente, mais uma vez desce o morro. Sardinha já lhe espera na janela. Depois de vê-la se masturba lentamente, mas não há perigo algum, Sardinha não faz mal a ninguém, seus desejos utópicos são todos de momento. Todo fim de tarde as prostitutas descem o morro para mais uma noite de trabalho árduo. Disputam cada metro quadrado das esquinas em busca de bons clientes. Dizem, os melhores são os velhos barrigudos, eles têm dinheiro e trepam por pouco tempo, já estão com os pés na cova, mesmo assim querem foder até o último dia de suas vidas. Elas vendem a própria alma ao Diabo, banalizam a vida por míseros trocados. Anelyze segue pela Avenida. Atravessa as ruas e ouve muitas vezes os carros assoviando para ela. Homens são todos iguais, instintivos e ordinários. Na cidade os homens são o recheio da massa putrefata. E anelyze segue para seu local de trabalho, já está acostumada com todos os deslizes da cidade grande, o vento chicoteia seus belos cabelos dourados. O vento beija-lhe a face. Quando chega, veste o uniforme e senta confortavelmente em sua cadeira. Um cantinho só dela, com flores e corações junto à tela do computador. Ao contrário das prostitutas, Anelyze não vende o corpo. Ela é telefonista e trabalha honestamente. É mulher direita e sonha um dia encontrar um homem de verdade para construir sua família.
Escrito por Jair às 12h45
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O cinismo do Bem
Pela lógica, o Bem seria inabalável. Pela fé, incontestável e verdadeiro. Como posso então deduzir que o mesmo seja cínico e desonesto? Sim, posso ter tais deduções e em cima disso admirar-me com as falsas prerrogativas, com os abusos e conseqüências destruidoras do Bem. Nada é inabalável e impalpável de dúvidas, o fluxo das coisas é contínuo, pois muda de direção a todo momento e nada que esteja no universo ficará livre das incógnitas e especulações.
Podemos então dissecar o Bem, tanto quanto seus fiéis seguidores para assim podermos nos surpreender com a podridão que nele habita. O Bem é mascarado e cínico, imoral e desonesto e faz de seus benfeitores beneficentes deles mesmos! Como algo pode ser justo e agradável conforme a moral quando nele mesmo existe injustiças e todo tipo de manipulação e acepção? O Bem de forma dissecada é inútil à moral, o único que corrompe e engana o ser humano, fazendo dos próprios seres humanos, fantoches das inverdades, pregadores do falso e corruptível. Não há bem no Bem, mas somente formas e variedades da falsa moral! E se para isso compele dúvidas, nem mesmo essa moral que dizem existir e ser verdadeira estará livre de especulações.
Para melhor entender nossas atitudes benignas falarei um pouco de nosso íntimo desejo masoquista, este está encravado em nossas entranhas como vermes famintos e sedentos de sangue de sofrimento e descaso. Flagelando-se, o ser humano “mutila o Mal” e liberta a “alma” para o encontro de seu par perfeito, o Bem! Enquanto sente enorme prazer de sua dor têm assim os “orgasmos” inconscientes e fica livre dos fantasmas que o perturbam, logo, tenho minhas dúvidas, o Bem faz escolhas, acepção de pessoas? Sim, ele escolhe os fracos de percepção, pois nunca entenderão e contestarão seu real sentido depravado e cínico. Os tolos exorcizam os próprios demônios quando neles mesmos buscam abrigos, e na derrocada das máscaras são tão vis e medíocres!
Tantos e tantos hipócritas usam a cínica palavra “Bem” para assim definir seus atos egoístas! Porque ninguém dá míseras moedas para um mendigo ou agasalho a um flagelado pelo simples ato de doar, não! A bondade nesse caso torna-se escambo, permuta, venda! De qualquer forma ele busca uma recompensa e em muitos casos a recompensa seria causar uma boa impressão a seu deus, para que esse lhe dê o ingresso rumo ao “paraíso”, se para ser do Bem é preciso comprar a tal bondade ou trocar por favores, o Bem não passa de um produto mercantilista! Pobre daquele que gasta migalhas para comprá-lo e assim tem em mente que haverá um futuro eterno e promissor nos reino dos hipócritas! Nada mais são que diversas personas que se compra ao longo da vida. O Bem é fraude, produto imoral e variavelmente promissor no mercado de permutas!
Por outro lado existe o Mal, esse sim é verdadeiro e sincero! Deves agora pensar, que estou delirando ou caindo em controvérsias e devaneios tolos, mas não! Não estou! Vejamos, o ser humano que diz fazer o Bem, não está fazendo o Bem, ele apenas busca uma recompensa para si mesmo suprindo assim algum desejo íntimo, e isso é bom? Não! É cínico, egoísta e imoral, portanto, perde seu real valor diante um significado. Então é mau? Também não, porque o Mal é verdadeiro, ele realmente torna a ser o que é, sem máscaras! O Mal não busca uma recompensa nem exige do ser humano que o siga, não faz acepção e não quer agradar a ninguém, nem mesmo ser bajulado, esse tem identidade própria e não se confunde com desejos. Então, se o Bem não é bom e o Mal não é mau, por que um há de ser melhor que o outro? Simples, algum dia já paramos pra pensar que a tudo rotulamos e fizemos com que um se torne superior que o outro? Sim, é crença antiga, e nessa estória um teria que ser melhor e mais sucedido, como o Bem não é detectável como a farsa da humanidade, tornou-se superior. Agora tente não suprir os desejos de alguém, logo verás que não havia bondade, mas um coração pétreo e cinéreo que ao longo do tempo vivia enclausurado sob a máscara do Bem, mas, se foi corrompido pela máscara e cinismo do Bem tornou-se do Mal? Engana-se, o Mal ali não habitava foi simplesmente o Bem que mudou de direção, caiu a máscara! Jair Cardoso
Escrito por Jair às 22h45
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Mensagem de Natal
Ulisses tinha apenas doze anos. Sua mãe era uma daquelas beatas papa-hóstias que não perdia uma missa. Mal o sino tocava e lá estava ela organizando o altar. Ulisses a acompanhara sempre, pois não tinha outra alternativa. —Ulisses vá tomar banho, teremos que estar na igreja daqui meia hora em ponto! —Ah mãe, a missa só vai começar daqui à uma hora, me deixa jogar um pouco mais de vídeo-game, falta pouco pra fechar esse jogo. —Já para o banho, ou fica sem vídeo-game por uma semana! Neuza até que tentava ser uma boa mãe, mas às vezes era severa demais. Desde cedo teve que cuidar da casa sozinha, seu marido dificilmente parava em casa devido a profissão. Enquanto isso preparava a ceia de Natal para o dia seguinte, era uma reunião de família como todos os anos. E todos os anos ela que cuidava de tudo, era uma mulher batalhadora. O marido de Neuza era caminhoneiro e já estava por vir, ele nunca ficara fora em ocasiões especiais. Depois de uma longa viagem, é sempre bom voltar pra casa, dizia ele. —Ulisses, tomou banho? Penteou o cabelo? Escovou os dentes? —Sim, sim, sim. —Então vamos, o Padre nos espera. Até que ele era um garoto obediente, Neuza não tinha muito que se preocupar. Ulisses era um garoto de ouro. —Boa noite Padre, ainda bem que chegamos a tempo, Ulisses sempre fica até tarde no vídeo-game, dê alguns conselhos pra esse rapaz, diz que garotos da idade dele devem estudar e não perder tempo com essas coisas. —O padre nom gosta que o menino perca seu precioso tempo com vídeo-game, poderia estar lendo a Bíblia e se inteirando com a grandiosa palavra de Deus. Tens lido a Bíblia Ulisses? —Sim padre, bastante. Ulisses dá aquele sorrisinho sem graça como se estivesse aprendido a lição. —Daqui a pouco os sinos irão tocar, eu vou lá pôr a minha batina, por favor, Neuza acomode os outros e sinta-se à vontade. —Sim Padre! Neuza se sente muito útil dentro de uma igreja. Acolhe as pessoas. Cobra o dízimo e passa com a cestinha pra enxugar os bolsos alheios que ali estão. Às vezes ela e outras beatas ficam lá no fundo reparando e falando das outras pessoas. É de praxe, reparar o cisco no olho dos outros é tão normal e corriqueiro, que não chega a ser um pecado mortal. —Estão vendo aquela ali de vestido vermelho? Enganou o marido, pulou a cerca com o irmão dele! Dizia Neuza com ar de superioridade. —Pouca vergonha. —Mulher desse tipo não deveria estar num local sagrado. —Profana! A missa começara, a mesma ladainha de sempre, e acabara sem nada a acrescentar. As missas de hoje não são mais como antigamente, antes tinha o glamour do latim. Quem entrava ignorante, saia mais ignorante ainda, pois não entendia patavina. Assim como toda mulher tem seu segredo, Neuza também tinha o dela. Ulisses não era filho de Márcio, seu marido. Quando mais nova, não suportava que ele ficasse tanto tempo fora. O fogo foi maior que o juízo, no fundo no fundo ela também sentia certa atração pelo primo de Márcio. Ela não pôde segurar e dormiu com ele, foi só uma noite, mas o bastante para engravidar. Ulisses acorda cedo, é Natal. É dia de confraternização. Márcio chegara pela madrugada, e já estava de pé tomando o café da manhã. —Oi pai, o que me trouxe de presente? —Hum, deixa eu ver filhão, papai não lhe trouxe nada, mas o Papai-Noel deixou alguma coisa lá embaixo da árvore. Ulisses corre pra ver do que se trata, são CD’s de vídeo-game, ele abraça seu pai (...) e corre para mostrar aos amigos. —Bom dia Neuza, que bom que acordou, meu amor hoje a família toda vai se reunir aqui em casa, a ceia já está quase toda preparada? —Sim, ontem já deixei quase tudo pronto. Todos os anos são sempre a mesma coisa, pessoas humildes se reúnem para comemorar o nascimento do menino Jesus. A noite chega. todos estão reunidos em volta da mesa, estavam sorridente e felizes, mas Ulisses estava pensativo e cabisbaixo. —Porque estás emburrado Ulisses? Pergunta Neuza. — Nada não, é que estou com algumas dúvidas. —Que dúvidas? —Mãe, a Bíblia nunca mente, não é? —Sim meu filho, tudo que está na Bíblia é verdade, porque é o livro de Deus! —E o que acontece com quem mente? —Vai para o inferno, porque mentir é pecado! Retrucou sua tia que também é beata assumida. —Mãe, o que estamos comemorando? —Oras, porque a dúvida, o nascimento do Menino Jesus, meu querido. —Vovô, vovó, o que estamos comemorando? —O nascimento de Jesus, neto querido. —Tia, o que estamos comemorando? —Ainda tens dúvidas? O nascimento de Jesus é claro. Respondeu sua tia freqüentadora assídua de qualquer evento religioso. —Mas porque tantas perguntas? Você não aprendeu tudo isso lá na igreja? —É justamente por isso. Porque ontem o Padre também disse que hoje estávamos comemorando o nascimento de Jesus. —Então, é exatamente isso, e o Padre não pode mentir. Agora coma, seu prato já está esfriando. Inconformado com as respostas, Ulisses ainda balbucia: —Só que nenhuma linha se quer em toda a Bíblia, fala que Jesus nasceu no dia 25 de dezembro. Inclusive um evangelista diz que Ele era sete meses mais jovem que João Batista, e João Batista nasceu no dia 27 de março, segundo a Bíblia. Já que a Bíblia não mente porque é o livro de Deus, então o Padre mentiu e todos vocês também mentiram. Vão todos para o inferno? A mensagem de Natal foi dada. Àquela ceia já não tinha mais sentido para Neuza e todos que ali estavam.
Escrito por Jair às 12h43
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A coragem de um mosquito
Há uma bruma densa no ar. Não ouço vozes, os espíritos estão todos mortos, todos mortos. O ar está irrespirável, mesmo assim sugo o mínimo de oxigênio que resta. A noite está calma e lúcida, quem sabe turbulenta e embriagada em algum lugar distante daqui. À noite os piores monstros saem de suas alcovas, eles deixam a carcaça de cordeiro, usada durante o dia, pendurada no fundo do guarda-roupa, e vestem seus casacos lupinos para embriagar suas vítimas e roubar a pura essência do pecado. Do lado de fora nem os grilos se manifestam. Tudo escuro, as trevas, o pesadelo dos mortais. Dentro de casa poucos corações batem descompassados, o meu e os de alguns ratos, talvez camundongos, são miúdos e sagazes, parecem crianças em tenra idade. Quando o silêncio é o dono do recinto, as torneiras se tornam o pior dos pesadelos com o tilintar de seus pingos infernais. As torneiras são as portas do inferno. Ao meu lado só a parede salpicada me olhando de esguelha, quem me dera ser uma parede e sustentar de vez esse meu voyeurismo. As paredes vêem, ouvem e delatam às vezes. Pobre de mim. Meus segredos mais íntimos um dia serão revelados por essa parede insólita. Maldita! Viver só é uma dádiva, louças sujas, meias jogadas, roupas empilhadas e o doce sabor da liberdade. Ah liberdade, até parece que me pertences, mas a noite é sorrateira e leva também meus melhores sonhos. Há quem pense o contrário. Eles têm medo do escuro são criaturas pegajosas e dependentes. Miseráveis. Há também os que ficam praguejando e dizendo que a vida é curta, se apegam em qualquer coisa que lhes prometa vida eterna, dizem que precisamos dar os bofes e o coração ao próximo e querem igualdade para todos, mas uma igualdade ao nível mais baixo. Pobres idealizadores, falam de um mundo melhor para toda a humanidade e não conseguem dar algo de bom nem aos próprios filhos. Diabos, o próximo que se dane, no fundo no fundo só pensam neles mesmos. Patifes. Às vezes um camundongo é a melhor companhia, é bem mais inteligente, vive menos e não nos nutrem de esperanças, pode partir a hora que desejar, nem por isso sentirei sua falta. Já os ratos, esses te ferram sem compaixão, são tão inúteis e vazios que nem vou perder meu tempo escrevendo sobre eles. Eu sempre soube que cada cabeça é um degrau, mas subir tanto para se chegar a lugar algum é tempo perdido. Os ratos são mórbidos e roem seus próprios rabos. Essa fumaça já começa a sufocar, sinto que já não consigo mais filtrar o oxigênio. De longe um pobre mosquito aventureiro bate suas frágeis asas para ultrapassar a densa cortina que se formou. Penso que esse mosquito deve ser louco, pois os outros foram todos embora. Covardes! Estão em seu leito de morte carcomidos pelas trevas. Esse outro não, luta contra a fumaça envenenada porque tem um objetivo, talvez nem seja mais pela fome e sim para provar a si mesmo que não há uma única barreira que não seja ultrapassada, e que de qualquer jeito a aterradora morte irá levá-lo. E lá vem ele em minha direção, sugando a morte a cada palmo, ultrapassa a cortina de fumaça, está tonto, mas cumpriu com sua meta. Não quis sugar meu sangue, apenas beija-me a face e serpenteando segue seu caminho de volta. É... Ele não queria meu sangue. Um sangue amargo e insípido. Queria apenas mandar um recado aos outros covardes: “eu venci!” E conseguiu, filho da puta!
Escrito por Jair às 14h32
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O Evangelho de Judas
Como muitos devem saber, Evangelho significa boas novas ou boas notícias para os mais íntimos, e que, a Bíblia possui quatro Evangelhos canônicos escolhidos ou sorteados dentre muitos outros. Faço lembrar que não cultuo religião alguma, e que estou ciente de que religiosidade é um estado de espírito tão respeitável quantos os maiores bens da vida, e, com base nisso, não farei menção a qualquer igreja, doutrina ou seita. Logo de título, mencionei não por acaso o Evangelho de Judas, que foi considerado por especialistas um documento autêntico da época que foram escritos outros Evangelhos, mas considerado apócrifo e sem validade pelo Bispo Cristão Irineu, em 180 D.C.Encontrado no subterrâneo do Egito, o documento passou pelas mãos de negociadores de antiguidades e por fim, quase vira pó no cofre de um banco, ficando lá por dezesseis anos! O documento passou por um processo minucioso de restauração e testes de carbono, assim como a tradução por um perito em coptos, idioma que foi escrito ou reescrito o Evangelho. Estima-se que tal documento foi escrito pelos gnósticos, considerados pelos cristãos de hereges, portanto, nenhum Evangelho poderia ser escrito pelos próprios evangelistas, já que esses não deixaram tais documentos em vida. Judas que era um dos apóstolos, ainda é considerado o maior delator e traidor do Cristianismo, seu nome é tido como piada e zombaria, até mesmo em nosso território nacional, é possível por meio de processo judicial, anular e substituir o prenome Judas por outro que não seja tão ‘humilhante’. Em 1978, Raul Seixas e seu companheiro inseparável Paulo Coelho já mencionavam o tal plano de Judas e Jesus Cristo, na música Judas, e o que de tão importante está escrito em tal Evangelho? Porque Supostos Evangelhos como o de Tomé e de Maria Madalena foram apagados da história Cristã? Teriam esses documentos injúrias ou desonras contra o Cristianismo, ou por perseguição aos agnósticos, considerados na época uma seita? Em sua defesa, o Evangelho de Judas é uma confidência que estremece os pilares do Cristianismo. Por ser descartado como apócrifo, também está no mesmo rol, todas as escrituras sem exceções, valendo-se de que, por se tratar de material sagrado, todos teriam o mesmo valor! Judas não seria o vilão ou conspirador como foi dito até hoje, mas, o melhor amigo e homem de extrema confiança de Jesus Cristo, sendo ele a peça fundamental para que a morte do Mestre se consumasse. Somente um homem por devoção e respeito ao melhor amigo e Pai, suportaria a dor de ser considerado eternamente o maior traidor da história Cristã. Judas, um herói, levou à cruz seu melhor amigo para que juntos espalhassem uma mensagem universal: “de que um verdadeiro Cristão renuncia o que há de mais valioso para abraçar e amar a todos.” Jesus Cristo renunciou sua vida terrena, e Judas renunciou a idoneidade de seu caráter. Portanto a nação Cristã, o julgou e ainda o julga como principal delator e homem sem moral, mas se o Cristianismo voltasse novamente à Jesus Cristo e Judas Iscariotes, teríamos uma filosofia religiosa mais pura e transparente, sem embustes e falcatruas. O ser humano entenderia o real sentido do Cristianismo, de libertar-se para a vida e doar um pouco de si a cada dia e não mais consentiria que pessoas sem escrúpulos morais, que hoje ‘enforcam os Judas’, colocam as mãos nos bolsos alheios e lhes tiram até as últimas moedas. A casa de Deus é o coração de cada pessoa e não os ‘palácios exuberantes’, e o Reino dos Céus está dentro de cada ser humano e não suspenso em algum lugar no espaço. Jesus Cristo e seus seguidores andavam descalços e maltrapilhos, jamais cobravam por suas palavras. Fique atento, a palavra de Deus não está à venda!
Escrito por Jair às 07h49
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Educação como prioridade
Vejo que o grande desafio de nossas instituições é formar bons cidadãos e pessoas aptas ao mercado de trabalho, contando que um dos maiores problemas dessa prerrogativa seria organizar uma sociedade justa, onde todos se beneficiassem com tal sistema. As instituições em si, se vêem apenas no direito de passarem aos aprendizes todo o conteúdo mecânico, uma falsa noção de cultura, cálculos e mais cálculos para depois avaliarem o desempenho de cada um nas provas decoradas. De alguma forma o ensino continua mecânico e repetitivo, partindo do pressuposto que a grande maioria o vê apenas como mera obrigação, ele se torna falho e inútil, quando seria bem mais empregado o dinheiro em instituições que difundissem o verdadeiro sentido de uma cultura superior, que criassem novos valores e assim formasse em cada cidadão um caráter mais social e compensador para ele próprio. Que tipo de educação seria necessário para esse crescimento? Primeiro, não precisamos de “zumbis sociais”, mas, difundir a auto-suficiência de cada um. Mesmo assim, seria necessário no mínimo de três a quatro gerações para começar a surtir algum efeito positivo. A cada dia presenciamos fatos irrelevantes, grande parte dos jovens, por desinteresse, desorganização, falta de estímulos e na maioria das vezes pela sua condição financeira, não têm como seguirem uma carreira profissional. As universidades são verdadeiras empresas que vendem o conhecimento necessário para a formação de tal profissional, e em muitos casos, depois de formados não encontram trabalho no meio em que vivem. Não é raro encontrar pessoas formadas, trabalhando de garçom ou babá no exterior, ou professores competentes com salários “de fome”, quando não muito raro encontrarmos pessoas sem formação alguma inseridas no meio político com salários altíssimos. Um contraste vergonhoso de nosso país que regride e não estimula o jovem a escolher um caminho compensador e concreto. Por outro lado, uma educação séria deve ter início desde os primeiros anos de uma criança, e para isso o ambiente é fundamental para tal crescimento, e o que vemos são pais desinformados “jogando no lombo do mundo” suas “criaturas”, e são os mesmos a reclamarem do Estado total postura para combater a violência, sem ao menos terem consciência de que a sociedade está sofrendo as conseqüências pela má formação e pouco cuidado dos próprios frutos. Colhe o que se planta, eis um ditado simples e direto! Acredito que o problema não é tão simples como se pensa, de apenas manter uma educação modelo e nada mais, é preciso sim difundir uma cultura superior, e, ao invés de preparar alguém para o mercado de trabalho, de ser apenas mais um a fazer parte de uma sociedade capenga, dar-lhe a oportunidade de crescer, de ser mais humano e voltado a união, tanto na família quanto fora dela. Pode ser utopia, e nisso levaríamos muito tempo, séculos talvez. Nossa população é muito jovem e com isso nos tornamos imaturos também, a sensação de “falsa liberdade” e libertinagem é o primeiro passo para a formação de uma sociedade desorganizada e violenta. Sabendo que o jovem de hoje será a mãe e o pai de família de amanhã, estamos encoberto por um pessimismo inevitável. A tendência é nos tornarmos cada vez mais desorganizados e fechados em nossa própria fortaleza. Vemos que o mercado de trabalho está cada vez mais técnico e seletivo, seria pretensão dizer que o “trabalho” está cada vez mais escasso, o que se vê é a escassez de profissionais aptos a exercerem tais cargos. Logo vem a velha e surrada desculpa de que se não existir uma oportunidade de trabalho, não há o aprendizado para tal. O que penso é que, cabe a cada um de nós buscarmos o aprimoramento, estudar, reciclar conhecimentos e construir as oportunidades e meios que o faça crescer profissionalmente. O mesmo acontece na vida, quando não se tem a vontade de lapidar-se, de evoluir e de buscar o melhor para si, nada mais será que um simples escravo dessa mesma sociedade doente que o acompanha. Ao contrário, quando se tem o sentimento de crescer, está impondo o mesmo sentimento aos que acompanham, e, se este sentimento for humanitário, está dando os primeiros passos para a formação de uma sociedade ideal. Seria muito difícil organizar um Estado sustentável e nivelado, assim teríamos que contar com a colaboração e a união inexistente de cada ser humano, quando na maioria das vezes, cada qual está apenas preocupado com seu conforto e bem-estar. E o que vemos são as brigas acirradas pelo poder, alguns líderes políticos lado a lado com a religião incitando e arrecadando os fiéis para assim sobreviverem, e às margens de tudo isso, a grande maioria são pessoas humildes inconscientes dos próprios direitos e deveres e com pouca informação do que se passa ao seu redor. Realmente são problemas renitentes a serem resolvidos a longo prazo, deveríamos sim, termos um sistema de educação mais rígido, programas para a formação de profissionais competentes, e até mesmo pena de morte para bandidos incorrigíveis. Países de primeiro mundo adotam sistemas eficazes contra a corrupção, qual o embargo para países de terceiro mundo adotarem os mesmos sistemas? Vejo então, de forma bem resumida, que o desenvolvimento ponderável de uma sociedade teria como base uma forte educação, sendo ela mais humanista e social, não se prendendo aos métodos tradicionais de ensino. Creio que o ser humano não necessite de migalhas ou bolsas de auxílio, quando ele mesmo fosse auto-suficiente e também colaborasse e auxiliasse para o bem-estar de todos. Jair Cardoso
Escrito por Jair às 14h46
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O mito de Ícaro por outra ótica
Ícaro perdera sua mãe muito cedo, Helena era jovem e bonita, quando morreu sufocada pela fumaça do vulcão Heron, completamente carregada de enxofre e outros gases, praticamente matou todos os habitantes do povoado ao Norte do mar Egeu, que ficava entre as montanhas gêmeas de Iniron.
Dédalo e seu filho Ícaro, estavam do outro lado da montanha, quando de longe viram a nuvem de fumaça negra expelida por Heron, mas, não imaginava que Helena, seu grande amor e mãe de seu filho Ícaro, perdera vida por causa da fúria do vulcão!
Estavam a oito horas do povoado, Dédalo testava sua nova arma de caça que dias antes acabara de construir, e Ícaro, que tinha um enorme carinho pelo pai, o acompanhara sempre, apesar de sua pouca idade, este já sonhava grande, queria ser um homem inteligente e inventor, como seu pai.
Dédalo ensinara a seu filho a grandeza do pensar, ensinara obediência e como se comportar como homem, respeitar os outros e acima de tudo, ajudar a todos para que seu povo também crescera. Mas, estava extremamente preocupado com a nuvem de fumaça negra em volta da aldeia, estava ansioso e com medo, Ícaro sentia o pavor nos olhos do pai. Mesmo que apressasse os passos, levariam cinco horas pra chegar em casa, e assim fez.
Tomando alguns atalhos, Dédalo mostrava os perigos da floresta, ele era um homem meticuloso e preocupado com os pequenos detalhes, de vez em quando alertava Ícaro dos perigos ocultos, e muitas vezes, tomado pela curiosidade, Ícaro tomava outros atalhos, mas seu pai logo lhe chamava a atenção.
Perto das montanhas gêmeas de Iniron, havia uma passagem secreta, Dédalo descobriu que sua fenda, poderia ir até uma ilha que se encontrava no meio do Mar Egeu, a fenda passava por dentro do Mar, e como tinha suas pontas em terra firme, o ar circulava entre as extremidades, arejando assim todo o caminho, e no coração de Irinon, jorrava água salgada, deixando as pedras coberta por sal, assim que o sol fazia evaporar o líquido.
Não muito distante de casa, já podia ver a nuvem negra se desfazendo aos poucos, porém, quando Dédalo chega em sua aldeia, vê somente destruição! Correu apavorado entre as cabanas de palha, e na porta de sua casa, segurando uma flor vermelha, Helena, caída e sem vida, deixara seu fiel marido e partira para o Rio das Almas, assim como quase todos que ali estavam, e tragaram a fumaça envenenada!
Movido pela tristeza, e com nenhuma esperança de reconstruir sua aldeia, Dédalo junto com seu filho Ícaro, parte para Atenas, pois sabia que lá encontraria melhores oportunidades e um melhor lugar para educar seu filho.
Chegando pede abrigo a sua irmã Policasta, que tinha um filho muito inteligente chamado Thalo. Policasta depois que soube o que acontecera com Helena, e concedeu abrigo ao habilidoso artista Dédalo e seu filho Ícaro.
Ícaro sentia muito a falta de sua mãe, porém, teve Thalo como um primo e amigo fiel, os dois corriam pelos bosques, brincavam como pássaros e admiravam o céu. Thalo imaginava e traquinava algo, enquanto Ícaro sonhava e caia em devaneios tolos. Continua...
Escrito por Jair às 16h54
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Passaram-se anos, os dois meninos cresceram, Dédalo ensinava Thalo a esculpir belas obras e criar grandes invenções. O menino criara o serrote, o compasso e inúmeras coisas, enquanto Ícaro era fascinado por astronomia e livros diversos.
Numa bela manhã, quando o sol nascera com todo seu brilho e vigor, ouve-se galopes e muito barulho, então, Atenas era tomada de surpresa pelos Cretenses. O rei Minos ordena seus soldados para darem o golpe de surpresa, pois durante anos, Atenas não se preocupava com a guerra, exercia a democracia e educava seu povo, enquanto Creta formava soldados.
Todos os atenienses, inclusive Dédalo e Ícarus, foram levados como escravo para Creta, e assim foram submetidos a trabalhos forçados. Os anos passaram, e Dédalo junto com seu sobrinho thalo, se destacavam com suas invenções, o Rei gostava e se admirava com tanta inteligências, logo, passaram a fazer parte dos aposentos do rei, junto com Ícaro e Policasta.
Minos era desafeto de Posseidon, rei dos mares, e esse tramava eternamente sua vingança. Posseidon amava Pasidae, mas ela nunca o quis, preferindo assim o rei Minos. Por vingança, o rei dos mares a faz apaixonar-se por um touro. Desse amor nasce o produto da vingança de Posseidon, a aberração chamada Minotauro, o filho de Pasidae tinha cabeça de touro e corpo de homem. Minos vendo a fisionomia assustadora de Minotauro, fica extremamente abalado e infeliz.
O rei, tendo Dédalo como seu homem de confiança, pede a ele que construa uma casa para Minotauro. E assim, Dédalo pensa numa prisão perfeita, onde jamais nenhum ser vivo sairá de lá depois de entrar, e, junto com seu filho Ícaro e seu sobrinho thalo, eles constroem o labirinto.
O tempo passara, e na medida que Minotauro crescia, se tornava mais e mais forte, um ser destrutível e invencível. Todos os anos, eram jogados no labirinto sete moças e sete rapazes, para a alimentação da criatura insaciável. Sua fama espalhou-se por toda a região, e chegou até o jovem aventureiro Teseu, que ao contrário de seu pai, que nascera para os negócios, gostava de aventuras para assim alardear sua força e esperteza.
Com a ajuda de Ariadne e Dédalo, teseu com um enorme fio, entra no labirinto e assim assassina o Minotauro, voltando por onde deixou os fios ele reencontra o caminho de entrada, e consigo leva a apaixonada ariadne, uma bela moça de Creta que vai embora com Teseu para Atenas. O rei Minos fica furioso quando sabe da morte do Minotauro, e mais furioso ainda com Dédalo, por esse ajudar um Ateniense a entrar e sair do labirinto, e como forma de tortura, deixa-o recluso no labirinto junto com seu filho Ícaro. Por algum tempo, Dédalo pede ao filho que junte todas as penas que conseguir, e com sua enorme genialidade, constrói asas coladas com cera, eis a única forma de fugir do labirinto, somente pelo céu, já que toda a ilha está cercada pelos guardas reais.
Antes de voarem, Dédalo alerta Ícaro sobre os limites de suas asas, não podiam voar muito próximo do mar, nem muito próximo do céu, falou dos perigos e dos desafios que iriam enfrentar, logo, sobem a uma colina e decretam assim a liberdade, não mais serviriam a Minos, não mais seriam escravos. Portanto, quando se distanciavam da ilha, Ícaro se maravilhava com a beleza e sutileza de voar, e assim subia cada vez mais alto, a ponto de não mais ouvir seu pai, o sol estava cada vez mais perto e o inevitável acontecera, suas asas derreteram, as penas se desprenderam e Ícaro caiu no mar Egeu, agora habitava as profundezas da casa de Possêidon, encontrou assim sua morte, logo depois de sua liberdade...
Se você que leu a estória e jamais tinha lido ela desde o começo, com certeza achou um tanto quanto triste e bonita, mas talvez não tenha percebido de que muitas coisas aqui contidas, não passam de meros apócrifos (rasuras, invenções), logo, de repente a passará para frente como se fosse uma verdade indiscutível sem ao menos procurar o que é certo e errado. Não aconselho que a passe para frente! E, para aquele que conhece o mito de Ícaro em sua verdadeira essência, achará muitas partes, aqui relatada, um absurdo! Realmente, Thalo nunca foi para Creta como escravo, assim como todo o povo ateniense, este, foi morto pelo orgulho e a inveja de Dédalo.
O que eu quero com isso, distorcendo o mito por conta própria? Realmente não tenho nenhum direito de fazer isso! E porque fiz? Simples, para mostrá-los que nem tudo é perfeito e livre de distorções, qualquer estória, qualquer livro ou escrituras podem ser modelados na medida que queremos, e se, fosse eu o criador do mito? De onde eu tiraria tudo isso? Por ser eu o primeiro a contar o mito, tudo que escrevi seria levado à frente sem nenhuma dúvida, a menos que ao longo do tempo, muito além do meu tempo fosse se modelando conforme a realidade de cada um. Então surgiriam novas especulações, quem sabe algum novo personagem e alguns poderes sobrenaturais. Precisamos disso, precisamos elevar um mito para nos sentirmos protegidos.
Agora, por outra ótica, vamos ressaltar alguns pontos que ficaram sem uma explicação convincente: De onde Dédalo teria tirado a cera para colar as penas? Alguma fórmula secreta de fabricação de cera, ou dos próprios ouvidos? Levaria centenas de anos... Se Possêidon tem poderes paranormais a ponto de fazer com que Pasífae se apaixonasse por um touro, porque não fez com que Minos se matasse pulando de um penhasco? Assim sua vingança seria mais plena! E ariadne, porque foi se apaixonar justamente por um Ateniense? E teseu, era mais indestrutível que Minotauro? E Minotauro, porque não o mataram quando nasceu? Ele era vegetariano ou carnívoro? Se contentava com sete moças e sete rapazes por ano? Comia-os de uma vez só ou guardava-os também para o Natal? Onde ele estava quando Dédalo construía o labirinto? Surfando no Havaii? E pra que serviu a linha quando o mais simples seria subir ao topo de uma das paredes e avistar a entrada? Quanto tempo levou para essa enorme construção ser feita? Pela rapidez a construtora foi do Sérgio Naia! Porque Ícaro teria que morrer no mar, casa de Possêidon? E Possêidon, era metade peixe e metade homem? Porque Dédalo viveria como escravo em Creta, quando tinha toda a liberdade para si? Quem colocou o Minotauro no labirinto? Creta e Atenas sempre viveram essa situação de amor e ódio? Pra que diabos serviu tudo isso? Para nos dizer o quanto somos invejosos (Dédalo) orgulhosos e desobedientes (Ícaro), arrogantes (Teseu), traidores (Pasífae) vingadores (Possêidon) tiranos ( Minos) egoístas (Ariadne), animais (Minotauro) ou inocentes e fracos (Thalo).
Como qualquer mito ou escritura, ficam as incógnitas, sendo elas rasuras ou reais, não passam de estórias inventadas pelo próprio homem, que vê um deus como a semelhança de si mesmo! Afinal de contas, algo ou alguém tem que ser superior a tudo isso. Que sejam os deuses! Esses, nunca poderão nos dar satisfações, pois são ilusão, utopia, obras de nossa imaginação, quanto nós, seres humanos, somos todos iguais!
Escrito por Jair às 16h50
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